quarta-feira, 30 de abril de 2014

Produtos naturais auxiliam no tratamento de doenças inflamatórias intestinais

Produtos naturais auxiliam no tratamento de doenças inflamatórias intestinais

30/04/2014
Por Diego Freire
Agência FAPESP – Uma pesquisa realizada no Instituto de Biociências da Universidade Estadual Paulista (Unesp), em Botucatu (SP), constatou a eficiência de produtos naturais derivados da flora brasileira no tratamento das doenças inflamatórias intestinais (DII), como a retocolite ulcerativa e a doença de Crohn. O estudo apresenta ainda novos marcadores moleculares que podem ampliar a compreensão que se tem dessas doenças, cuja etiologia ainda é desconhecida.
“Trata-se de um projeto que consideramos audacioso por estudar tanto a doença em si, priorizando alvos moleculares da ação de fármacos clássicos, como alvos farmacológicos para novos produtos, como as cumarinas naturais e algumas plantas medicinais”, disse Luiz Claudio Di Stasi, responsável pela pesquisa “Doença inflamatória intestinal (DII): novos marcadores moleculares e atividade anti-inflamatória intestinal de fármacos e produtos de origem vegetal”, realizada com apoio da FAPESP.
Entre os principais resultados está a descoberta de que uma dieta com farinha de banana nanica verde pode impedir a inflamação intestinal em roedores.
“Consideramos a importância da microbiota intestinal na proteção contra o processo inflamatório para propor o estudo de alguns produtos naturais adicionados à dieta, que reunissem a capacidade de modular a microbiota intestinal previamente e agissem na prevenção das recidivas dos sintomas da retocolite ulcerativa e da doença de Crohn”, disse Di Stasi.
O grupo coordenado pelo pesquisador estudou vários agentes prebióticos – fibras que servem de “alimento” para as bactérias intestinais benéficas, ajudando a organizar a flora intestinal –, como a polidextrose e as fibras da banana nanica (Musa spp AAA) verde, do jatobá-do-cerrado (Hymenaea stigonocarpa) e da taboa (Typha angustifolia).
O extrato da casca do caule do jatobá-do-cerrado e a farinha da polpa da fruta apresentaram ação anti-inflamatória em ratos com inflamação intestinal induzida por ácido trinitrobenzeno sulfônico (TNBS). De acordo com os resultados publicados no Journal of Ethnopharmacology, “os efeitos farmacológicos estão relacionados à presença de compostos antioxidantes no extrato, como flavonoides, taninos condensados e terpenos na casca e na polpa de frutos de jatobá-do-cerrado”.
O projeto também estudou várias concentrações da farinha produzida com o caule da taboa, planta aquática muito comum no Brasil, típica de brejos, manguezais e várzeas. Verificou-se que, quando a farinha compõe 10% da dieta, há uma redução na lesão provocada por DII, com efeitos nas aderências de órgãos adjacentes e na diarreia.
Esses efeitos estão relacionados à inibição de marcadores bioquímicos de inflamação colônica, como a atividade das enzimas mieloperoxidase, liberada em resposta a invasões microbianas, e fosfatase alcalina, que inibe o crescimento de bactérias intestinais que estimulam a inflamação e impedem a translocação de microrganismos para a corrente sanguínea, além de uma atenuação das atividades da glutationa, um antioxidante hidrossolúvel.
“A farinha do caule da taboa demonstrou ser tão eficaz quanto a prednisolona, fármaco do grupo dos anti-inflamatórios esteroidais utilizado atualmente no tratamento de DII, com a vantagem de não apresentar efeitos adversos e colaterais”, destacou Di Stasi. Os estudos com a planta foram descritos em artigo publicado na BMC Complementary and Alternative Medicine.
Em outro grupo de experimentos, o projeto estudou diferentes cumarinas naturais isoladas e, entre os resultados, destacam-se os obtidos com a 4-metil-esculetina, princípio ativo presente nas folhas e raízes de diversas espécies de plantas, entre as quais as do gênero Mikania, que incluem diferentes plantas conhecidas no Brasil como guaco.
A pesquisa, publicada nos periódicos científicos Chemico-Biological Interactions e European Journal of Inflammation, demonstrou que a 4-metil-esculetina produz efeitos semelhantes aos da prednisolona, e seus efeitos protetores estão relacionados à capacidade de reduzir o estresse oxidativo do cólon e inibir a produção de citocinas pró-inflamatórias. A administração de metil-esculetina nos modelos da pesquisa exerceu tanto efeitos preventivos quanto curativos, de acordo com o pesquisador.
Novos marcadores
Como as causas das DII ainda não são claras, uma maior compreensão dos mecanismos que regulam a integridade da barreira intestinal e de sua função pode ajudar a entender o modo de ação dos medicamentos atuais usados para tratamento.
Diante disso, o trabalho também estudou como a expressão da enzima heparanase, do complexo proteico NF-kB, do gene hipoxantina fosforibosiltransferase (HPRT) e da proteína HSP70 afeta a inflamação intestinal induzida por TNBS em ratos e os efeitos anti-inflamatórios dos medicamentos alopáticos sulfassalazina, prednisolona e azatioprina, possibilitando o entendimento de novos modos de ação desses fármacos.
“Nossos resultados indicam que a heparanase, o NF-kB, a HSP70 e o gene HPRT são alvos farmacológicos que devem ser considerados nos estudos de novos medicamentos para tratar a inflamação intestinal, sendo alvos moleculares importantes que explicam alguns dos aspectos da etiopatogenia das DII”, avaliou Di Stasi.
Os pesquisadores pretendem, agora, estudar algumas espécies de plantas alimentícias da Amazônia como potenciais produtos prebióticos, que podem ser usados como substrato de fermentação da flora benéfica do intestino com consequente aumento dessas bactérias e de seus metabólitos, que possuem atividade imunomoduladora e anti-inflamatória.
A ideia, de acordo com Di Stasi, é possibilitar a produção de alimentos funcionais, “agregando valor a esses produtos, que já possuem apelo científico e comercial, e ampliando as possibilidades de prevenção por meio de sua incorporação a uma dieta preventiva de recidivas dessas doenças”.
O grupo também pretende aprofundar as pesquisas com as espécies já estudadas e com as da Amazônia para avaliar se a microflora intestinal foi modulada, assim como seus metabólitos, além de realizar estudos de sinergismos com fármacos envolvendo as espécies mais promissoras, apontando novos alvos moleculares, obtendo dados que podem continuar auxiliando na elucidação da etiologia das DII e indicando novas estratégias de tratamento e prevenção. 

sexta-feira, 25 de abril de 2014

Estudo sobre picada da jararaca ajuda a entender mecanismos da hemorragia

Estudo sobre picada da jararaca ajuda a entender mecanismos da hemorragia

25/04/2014
Por Fabio Reynol
Agência FAPESP – Há muito se sabe que o envenenamento provocado por serpentes como a jararaca (Bothrops jararaca) pode causar danos aos tecidos ao redor do local da picada e estimular um quadro de hemorragia. Entender as causas desses efeitos, a sua etiologia, no entanto, é um desafio complexo.
É o que conta o médico veterinário Marcelo Larami Santoro, pesquisador do Instituto Butantan, em São Paulo, que conduziu o projeto “Importância da lesão local induzida por metaloproteinases de venenos ofídicos na indução de plaquetopenia em envenenamentos” de 2011 a 2013 com o apoio FAPESP na modalidade Auxílio à Pesquisa - Regular.
“Na maioria das ocorrências, o soro antiofídico é eficaz para tratar as picadas de jararaca; em casos mais graves, porém, pode ocorrer uma hemorragia muito intensa que deve receber tratamento específico”, disse o pesquisador.
Para entender como o veneno da jararaca afeta o sistema de coagulação e as plaquetas (células que ajudam a controlar a perda de sangue), foram feitos experimentos em ratos utilizando duas vias de inoculação, a subcutânea e a intravenosa. Com isso, procurou-se verificar a importância da lesão local na indução da plaquetopenia (redução da contagem de plaquetas no sangue) e das alterações do sistema de coagulação.
O estudo também testou a importância das duas principais classes de toxinas presentes no veneno, as metaloproteinases e as serinaproteinases; para isso, o veneno da jararaca foi incubado, antes de ser injetado nos animais, com inibidores apropriados. O objetivo da incubação do veneno é promover a inibição de determinadas enzimas. Como já se sabe, ambas as classes apresentam atividade anti-hemostática, ou seja, impedem a detenção da perda sanguínea, reação que ocorre quando o organismo tenta inibir uma hemorragia.
De acordo com os resultados, as duas classes de toxinas não estão diretamente envolvidas na origem da plaquetopenia induzida pelo veneno da jararaca, o que suscitou a conclusão de que outros mecanismos ou toxinas do veneno devam ser responsáveis pela redução das plaquetas. No entanto, as metaloproteinases do veneno se mostram essenciais para o desenvolvimento dos distúrbios da coagulação. Essa evidência contesta uma opinião difundida ao longo dos anos entre médicos e cientistas, de que as serinaproteinases são as toxinas mais importantes para o consumo do fibrinogênio, proteína envolvida no processo de coagulação sanguínea e cuja diminuição no sangue favorece o quadro hemorrágico decorrente da picada da jararaca.
Outro dado importante levantando foi que a lesão provocada no local da inoculação do veneno pode estimular a liberação de fator tissular na circulação sanguínea. Conhecido também como tromboplastina, o fator tissular é uma substância presente em tecidos, monócitos e plaquetas que desempenha um papel fundamental na coagulação sanguínea.
“O aumento do fator tissular na circulação torna a ação do veneno mais potente, aumentando os danos nos tecidos ao favorecer a coagulopatia, que são distúrbios de coagulação”, acrescentou Santoro, ressaltando que o estudo da ação dos venenos ofídicos ao longo do século XX ajudou a ciência a descobrir os mecanismos da coagulação sanguínea.
O artigo Bothrops jararaca venom metalloproteinases are essential for coagulopathy and increase plasma tissue factor levels during envenomation, descrevendo todos esses resultados, será publicado na revista PLOS Neglected Tropical Diseases.
Parceria com Argentina
O projeto contou com a participação da pesquisadora María Elisa Peichotto, da Universidad Nacional del Nordeste (NDDE) da Argentina. O trabalho foi aprovado na chamada do acordo de cooperação científica assinado em 2010 entre a FAPESP e o Consejo Nacional de Investigaciones Científicas y Técnicas de la República Argentina (Conicet).
A pesquisadora argentina é a autora principal de um artigo científico desenvolvido durante o projeto,Inflammatory effects of patagonfibrase, a metalloproteinase from Philodryas patagoniensis (Patagonia Green Racer; Dipsadidae) venom, publicado no periódicoExperimental Biology and Medicine.
A parceria com o país vizinho ainda colaborou para a realização da primeira Jornada “Investigación biomédica de animales venenosos de la selva paranaense”, realizada em maio de 2013 na cidade argentina de Puerto Iguaçu.
Outro fruto importante do projeto foi a pesquisa de mestrado “Patogênese dos distúrbios hemostáticos sistêmicos induzidos pelo veneno da serpente Bothrops jararaca”, da estudante Karine Miki Yamashita, apoiada por uma bolsa FAPESP.
Santoro pretende agora continuar a investigação sobre o fator tissular e os mecanismos envolvidos com ele. “Conhecendo-o melhor poderemos colaborar para combater a sua ação nos casos de envenenamento”, diz.

 

segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

Editais de seleção para Mestrado e Doutorado

Estão abertas as inscrições para a seleção de novos alunos de mestrado e doutorado nos programas de pós-graduação em Biologia Molecular e em Biologia Animal. Em ambos os programas, há vagas na linha de pesquisa em Toxinologia.
Para acessar os editais, clique em:
http://www.unb.br/posgraduacao/stricto_sensu/editais.php

segunda-feira, 16 de setembro de 2013

Proteína do veneno da serpente urutu pode ser benéfica para o coração

Proteína do veneno da serpente urutu pode ser benéfica para o coração

16/09/2013
Por Karina Toledo
Agência FAPESP – Testes in vitro feitos na Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) indicam que a alternagina-C (ALT-C) – uma proteína extraída do veneno da serpente urutu (Bothrops alternatus) – é capaz de aumentar a força de contração cardíaca e tem potencial farmacológico a ser explorado.
A proteína está sendo testada no miocárdio de camundongos e de peixes durante o pós-doutorado de Diana Amaral Monteiro – com Bolsa da FAPESP – sob a supervisão do professor Francisco Tadeu Rantin e colaboração de Heloisa Sobreiro Selistre de Araújo e Ana Lúcia Kalinin.
Resultados preliminares foram apresentados por Monteiro durante a 28ª Reunião Anual da Federação de Sociedades de Biologia Experimental (FeSBE), realizada em agosto em Caxambu (MG).
“Se os resultados positivos se confirmarem em futuras etapas, essa proteína poderá ser útil no tratamento de doenças como insuficiência cardíaca, infarto e isquemia crônica do coração”, afirmou Monteiro.
A ALT-C foi isolada inicialmente durante uma pesquisa coordenada por Araújo e apoiada pela FAPESP. O método de obtenção da molécula foi patenteado por causa de sua propriedade de induzir a angiogênese, ou seja, a formação de novos vasos sanguíneos.
“Como os estudos anteriores mostraram que a proteína promoveu revascularização e regeneração em pele lesada de ratos, surgiu a ideia de que também tivesse efeito benéfico no sistema cardiovascular”, contou Monteiro.
Nos testes já realizados, a pesquisadora administrou, por via intra-arterial, uma dose única de ALT-C no peixe traíra (Hoplias malabaricus). Após 7 dias, a contratilidade, in vitro, de tiras ventriculares isoladas do coração dos animais foi analisada. A ALT-C causou um aumento significativo na força de contração do miocárdio de traíra e nas taxas de contração e relaxamento, modulando positivamente a contratilidade cardíaca.
“Ainda vamos estudar os mecanismos responsáveis por essa melhora na função cardíaca. Mas já sabemos que essa proteína se liga a um receptor tipo integrina (proteína existente na superfície das células) e isso desencadeia uma série de sinalizações intracelulares, capazes de promover a ativação de genes e o aumento na produção do fator de crescimento endotelial vascular (VEGF), relacionado à angiogênese”, contou Monteiro.
O próximo passo da investigação, segundo a pesquisadora, será avaliar os efeitos dessa proteína nos mecanismos envolvidos na contração do coração de camundongos.
Ainda durante a reunião da FeSBE, Monteiro apresentou os resultados de seu projeto de doutoradoorientado por Kalinin.
A pesquisadora investigou o efeito de diferentes vias de contaminação por mercúrio nos peixes brasileiros traíra e matrinxã (Brycon amazonicus) e observou que o metal prejudicou tanto a contratilidade e a capacidade de bombeamento do coração como as respostas cardiorrespiratórias dos animais em concentrações normais de oxigênio e em situações de hipóxia (baixa concentração de oxigênio dissolvido na água).
Os dados foram publicados nas revistas Aquatic Toxicology e Ecotoxicology.
 

sexta-feira, 5 de julho de 2013

Pesquisador desenvolve ferramentas para sintetizar moléculas em série

Pesquisador desenvolve ferramentas para sintetizar moléculas em série

05/07/2013
Por Karina Toledo
Agência FAPESP – A natureza é fonte inesgotável de moléculas com propriedades funcionais para as indústrias farmacêutica, alimentícia, têxtil e cosmética e muitas outras. Mas, na maioria dos casos, essas moléculas precisam ser recriadas em laboratório por meio de processos químicos para que seja possível aperfeiçoá-las ou produzi-las em quantidades suficientes de modo a atender a demanda do mercado sem comprometer sua fonte natural.
Os avanços nessa área da química, conhecida como síntese orgânica, foram destaque durante a Escola São Paulo de Ciência Avançada (ESPCA) em Química Bio-orgânica, evento apoiado pela FAPESP que termina nesta sexta-feira (05/07) em Araraquara.
“Praticamente todos os materiais que usamos hoje – pigmentos, perfumes, aditivos alimentícios, fertilizantes, inseticidas, papeis e polímeros – envolvem elementos de síntese. Não há uma parte da sociedade moderna sem o toque da química sintética”, disse à Agência FAPESP Steven Ley, professor do Departamento de Química da Universidade de Cambridge, no Reino Unido, e um dos principais destaques do evento.
Com o auxílio de colaboradores, Ley realizou a síntese total de mais de 140 produtos naturais com propriedades químicas importantes. Um dos mais recentes foi a rapamicina, composto com efeitos antifúngicos e imunossupressores descoberto no solo da Ilha de Páscoa na década de 1970.
Mas a contribuição mais original de Ley para a área de síntese orgânica tem sido o desenvolvimento de ferramentas capazes de revolucionar a forma como as moléculas são construídas em laboratório.
Mais do que propor novos métodos de síntese, ou seja, o uso de diferentes reagentes, catalisadores, solventes ou rotas, Ley quer substituir os clássicos frascos de vidro com fundo redondo usados desde os tempos da alquimia por máquinas capazes de fazer a síntese de moléculas complexas – que exige várias etapas de transformação – de forma automatizada. Dessa forma, ele pretende reduzir o desperdício de tempo, energia, insumos, efluentes e recursos humanos.
“Para produzir 1 quilo de uma determinada droga, uma indústria farmacêutica gera, em média, 25 quilos de lixo. Para cada quilo de computador produzido são gerados 50 quilos de lixo. Essa sobra é, na maioria dos casos, queimada. Isso não é aceitável. A química feita até agora não é sustentável, não é ecológica. Se não mudarmos nossas práticas, o legado deixado pelo modo como fazemos moléculas vai se tornar um problema”, afirmou Ley.
De modo geral, quanto maior e mais complexa é a molécula que se deseja recriar em laboratório, maior é o número de etapas e produtos necessários para fazer a transformação química, explicou Ronaldo Pilli, professor do Instituto de Química da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e um dos palestrantes da Escola em Araraquara.
“Não existe uma única abordagem, mas, normalmente, parte-se de uma matéria-prima comercial, barata e possível de ser modificada quimicamente. O químico monta então o quebra-cabeça”, disse.
Pelos métodos tradicionais, em cada etapa do processo os reagentes precisam ser misturados em um reator. Após a reação química, o produto resultante é isolado e purificado para, em seguida, ser colocado em outro reator, com um novo reagente. O processo se repete até chegar à molécula desejada. Os solventes, catalisadores, restos de reagentes e demais insumos que sobram em cada etapa são descartados.
“A parte mais trabalhosa da química de síntese é a purificação e o isolamento das moléculas. Retirar o que você precisa daquele meio que contém subprodutos, solventes, restos de reagentes, catalisadores é uma tarefa que toma tempo e é entediante. Há séculos são usados métodos como destilação, cristalização e, mais recentemente, cromatografia. Ley é um dos poucos que estão tentando fazer de forma realmente diferente”, explicou Pilli.
Uma das primeiras e mais importantes contribuições do pesquisador britânico foi desenvolver estratégias para imobilizar os reagentes em uma resina, de forma que pudessem ser reaproveitados. Nos últimos 13 anos, Ley tem se dedicado a inventar instrumentos capazes de realizar as diversas etapas de transformação, isolamento e purificação de forma contínua e automatizada – 24 horas por dia, sete dias por semana – reciclando reagentes, catalisadores e demais insumos e minimizando a formação de subprodutos. É a chamada química em fluxo, tema de sua apresentação na Escola de Química Bio-orgânica.
“Isso nos permite fazer a mesma química gastando menos. É tão importante poupar o trabalho humano em tarefas triviais como poupar materiais ou energia. Sofisticamos muito o que somos capazes de fazer na área de síntese orgânica e agora precisamos pensar em trabalhar em linha de produção. É assim que se produzem carros e aviões. Por que não fazer moléculas dessa forma?”, defendeu Ley.
Mas alguns obstáculos precisam ser vencidos antes que a química em fluxo se torne a praxe na área. O alto investimento inicial é um dos principais problemas.
“É preciso inventar essas máquinas e para isso são necessários estudantes. O custo de um pós-doutorando é alto. Além disso, os materiais usados têm de ser sofisticados, pois o equipamento tem de ser robusto. Não pode ficar quebrando toda hora. Nossas máquinas são capazes de nos enviar mensagens de texto via internet ou celular para avisar quando há um vazamento ou alguma outra coisa dá errado”, contou o pesquisador.
Não há um único equipamento capaz de atender a todos os trabalhos de síntese. É preciso adaptar os materiais usados de acordo com o tipo de reação química a ser feita, temperatura, pressão e outras questões técnicas.
“Praticamente toda a indústria petrolífera trabalha em fluxo contínuo. Toda a grande farmacêutica hoje está considerando usar métodos de processamento contínuo. Para a indústria esse conceito é muito familiar, mas para nós cientistas nem tanto, pois tudo o que fazemos é novo. É uma mudança grande de paradigma e mesmo professores do ensino médio terão de se adequar. Não se trata apenas de uma nova tecnologia que está alcançando resultados interessantes e sim de uma mudança fundamental de atitude. Vai levar tempo para ser adotada, mas acredito que a necessidade de uma química mais verde vai impulsionar a mudança”, avaliou Ley.
Expandindo colaborações
Outro destaque da área de síntese orgânica durante a Escola foi a palestra de Paul Wender, professor da Universidade de Stanford, Estados Unidos. O pesquisador coordenou a equipe que concluiu, em 1997, a síntese do taxol – substância usada no tratamento de alguns tipos de câncer e isolada originalmente da casca do teixo-do-pacífico, uma das árvores que crescem mais lentamente no mundo e sob ameaça de extinção.
Durante o evento, Wender falou sobre estudos com moléculas análogas à briostatina, produto natural isolado do organismo marinho Bugula neritina e que vem apresentando resultados muito promissores contra Aids, Alzheimer e câncer.
John Vederas, do Departamento de Química da Universidade de Alberta, no Canadá, apresentou pesquisas relacionadas à síntese de análogos da lovastatina – substância originalmente isolada em fungos da espécie Aspergillus terreus capaz de reduzir o colesterol.
O evento realizado no âmbito da Escola São Paulo de Ciência Avançada (ESPCA) – modalidade de apoio da FAPESP que financia cursos de curta duração em pesquisa avançada nas diferentes áreas do conhecimento – reuniu 22 palestrantes de diversos países e cerca de 170 estudantes brasileiros e estrangeiros. A coordenação foi da professora da Unesp Vanderlan Bolzani, que também é membro da coordenação do Programa BIOTA/FAPESP.
“Esperamos que a ESPCA contribua para a criação de um poderoso ambiente de ciência e tecnologia no Estado de São Paulo e no país. Com essa iniciativa, a FAPESP espera estabelecer um polo globalmente competitivo para pesquisadores talentosos e expandir as colaborações internacionais de nossas universidades”, destacou Bolzani durante a abertura do evento.